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Radiografia do cristianismo brasileiro

Em comemoração aos 40 anos de seu nascimento, a revista evangélica "Ultimato" publicou, em meados de 2008, uma coletânea de cartas das milhares que recebeu ao longo de seus quarenta anos de existência (1968-2008).

O Pastor Elben M. Lenz César, que é, ao mesmo tempo, diretor e fundador da revista, assim explica a iniciativa que tomou: «Organizadas por tema, as cartas aqui reunidas foram escritas por um grande número de autores, homens e mulheres, eleitores de direita e eleitores de esquerda, cristãos humildes e cristãos arrogantes, protestantes que mandam católicos para o inferno e católicos que mandam protestantes para o inferno. "Cartas a Ultimato" é uma espécie de radiografia do cristianismo brasileiro, com suas luzes e sombras. Como vozes saídas de um confessionário, sem acanhamento, sem rodeios, todas as cartas demonstram a posição religiosa dos missivistas, banhada ou não de tolerância».

Infelizmente, pelas tarefas e preocupações que me são reservadas, não disponho do tempo suficiente para ler todos os livros, revistas e jornais que me chegam às mãos. Contudo, com "Cartas a Ultimato" foi diferente, inclusive porque, como faço com outros periódicos, o que leio logo e com prazer são sempre as manifestações dos leitores, através de suas cartas. São elas que revelam a alma do povo brasileiro, certamente mais do que artigos compilados em escritórios, diante do computador, coletando e costurando textos roubados do google.

Devo reconhecer que o Pastor Elben foi muito feliz na iniciativa que tomou, explicitada no subtítulo que escolheu para a sua obra: "Uma radiografia do cristianismo brasileiro". A meu ver, "Cartas a Ultimato" espelha a realidade de cristãos que, em sua maior parte, se ufanam por pertencer à Igreja de Cristo, mas que nem sempre demonstram o mesmo orgulho pelos irmãos e irmãs que o Senhor lhes concede. Além de assinalarem uma variedade imensa de mentalidades e de atitudes – talvez maior do que se poderia esperar de Igrejas alicerçadas no mesmo Evangelho –, as 700 cartas recolhidas pelo Pastor Elben levantam uma série de dúvidas e perguntas relacionadas com o tipo de cristianismo que foi e continua sendo implantado no Brasil.

À primeira vista, a impressão que se tem é de estar navegando numa Arca de Noé. Grande número das cartas mostra uma face do "Povo de Deus" diferente da que se poderia esperar: agressivo e radical, demonstrando que, em matéria de religião, o fundamentalismo pode estar mais presente que em qualquer outro campo. De fato, ao terminar a leitura do livro, comecei a ter sérias dúvidas sobre a promessa de Jesus: «Haverá um só rebanho e um só pastor» (Jo 10,16), tantas são as agressões e hostilidades de vários missivistas, independentemente se católicos, evangélicos ou sem uma denominação específica.

Mas há também o outro lado da medalha, demonstrando que, quem conduz a história é Deus. Com um amor infinito e paciente, a sua tarefa não se resume em consertar o que o homem estraga... As "Cartas a Ultimato" revelam que é muito maior o número de pessoas esclarecidas, maduras e convictas da fé que receberam. Com humildade e confiança, através da oração e da caridade, procuram reviver em si os sentimentos e as atitudes de Cristo: "O bom pastor dá a vida por suas ovelhas" (Jo 10,11), sobretudo por aquelas que se afastaram do rebanho. É assim que as conversões acontecem por toda a parte, independentemente se através de católicos ou de evangélicos.

Encerro com duas cartas que falam dos frutos produzidos por quem vive a fé. A primeira é de um evangélico. "Meu nome é Florisvaldo de Oliveira, mais conhecido como ex-cabo Bruno. Digo ex porque o cabo Bruno morreu quando bateu de frente com Alguém mais valente que ele, o Senhor e Salvador Jesus Cristo, em junho de 1991. Desde então, sirvo ao meu Senhor com alegria, dedicação e fidelidade. Hoje, sou evangelista, capelão e responsável pelo trabalho aqui na Penitenciária. Triste é o cenário que nos rodeia. É como um vale de ossos secos. Construímos aqui um templo de 8 x 15 metros, duas salas e dois banheiros. Evangélicos de seis denominações diferentes nos reunimos nesse templo. Estou preso há 21 anos, porque, como policial militar, me tornei justiceiro e fazia justiça com as próprias mãos. Cometi dezenas de homicídios".

A segunda, de um católico: "Sou leitor desta conceituada revista. Como católico, acredito que o Espírito Santo está em todas as denominações e sopra onde quer. A Igreja Católica passou por muitas transformações. Só na pequena cidade onde estou, há 69 círculos bíblicos. Sou leigo, e juntamente com outro universitário, viemos para o nordeste de Minas para ajudar na entrega do Evangelho. Como salário, temos casa e comida, alegria e confiança no Senhor. Mais de duzentos jovens católicos de uma cidade do sul abandonaram família e foram levar o Evangelho à região amazônica. Uma Igreja que se renova no Senhor é uma Igreja maravilhosa!".

Por Dom Redovino Rizzardo, Bispo de Dourados

FONTE: Jornal "O Progresso", 09/01/2009